Porsche Taycan Cross Turismo: Fronteira selvagem

Ao sabor dos novos tempos, a Porsche envereda pela eletrificação em passo seguro, com a sua meta de veículos eletrificados a atualizar-se igualmente consoante a evolução do mercado mundial. Vejam-se os dados fornecidos pela própria marca para se ter uma ideia de progresso: em 2019, um total de 33% das suas vendas foram de modelos eletrificados (elétricos e híbridos), tendo para 2023 uma ambição de 63% para essa mesma fatia de automóveis. Porém, para 2028 – ainda há pouco tempo era 2030 -, a Porsche aponta já para um total de 89% de automóveis eletrificados. Ou seja, dentro de menos de uma década, a marca alemã estima que apenas um em cada dez automóveis por si vendidos sejam unicamente alimentados por motores de combustão.

Mas, para já, o foco está na expansão da gama Taycan, aquele que foi o primeiro automóvel moderno 100% elétrico da Porsche (recorde-se que nos primórdios, a Porsche começou precisamente com um elétrico), que tem sido um grande sucesso em todos os mercados, com natural destaque para os da Escandinávia, onde a tecnologia elétrica é ‘rainha’ e tem levado ao crescimento exponencial das vendas e da sua quota de mercado local, por exemplo, na Noruega.

O novo Taycan Cross Turismo ganha 39 litros face à berlina, passando a oferecer 446 litros, podendo chegar aos 1212 litros com o rebatimento dos bancos traseiros, sendo este um dos seus argumentos. Mas está longe de ser o único. O modelo germânico destaca-se pela linha de tejadilho descendente no sentido da traseira, algo que os designers da Porsche chamam de ‘flyline’. Uma ideia de desportividade associado ao conceito de ‘shooting brake’ para maior versatilidade, termo que também pode ser aplicado ao conceito mais orientado para o ‘off-road’.

Entre os elementos de design que apontam para essa ideia estão os frisos dos para-lamas, as secções inferiores autónomas na dianteira e traseira, bem como as embaladeiras. Em combinação com o pacote Offroad Design, o Cross Turismo tem abas especiais nos cantos dos para-choques dianteiro e traseiro e nas extremidades das embaladeiras, que servem de proteções inferiores.

A aerodinâmica voltou a ser um ponto bastante trabalhado, com um coeficiente de arrasto de 0,26 Cx, o que contribui para maior eficiência. A aerodinâmica ativa, com medidas do Porsche Active Aerodynamics (PAA), incluem as entradas de ar reguláveis na parte da frente e a suspensão pneumática que consegue rebaixar o Taycan Cross Turismo em dois níveis. O spoiler de tejadilho na traseira é fixo. Já a altura ao solo varia entre os dois e os três centímetros a mais face à berlina. As jantes são de 20 ou de 21 polegadas, compondo o visual robusto que não deixa ninguém indiferente. Como se o Taycan tivesse sido sujeito a um treino intensivo no ginásio, parecendo mais volumoso.

No interior, o design do Taycan Cross Turismo replica o do Taycan, com o painel de instrumentos independente e curvo de grande dimensões, a que se junta, no centro do tablier, o ecrã tátil de 10.9 polegadas, a que se pode juntar ainda um outro ecrã opcional para o passageiro, numa faixa contínua num conceito ‘Black Panel’. Em combinação com o pacote Offroad Design é montada uma bússola no topo do tablier. Nos bancos traseiros, outro dos seus argumentos é a maior altura até ao tejadilho – mais 4,5 cm, que prometem dar maior conforto a ocupantes mais altos nos lugares posteriores.

Outro nível de versatilidade

Mas o visual não seria nada sem uma vertente tecnológica correspondente. Para o efeito, a par dos modos de condução já conhecidos, que vão do ‘Range’ ao ‘Sport+’, o Cross Turismo acrescenta um modo de condução em gravilha ou terra, o ‘Gravel Mode’. Sem transformar o Taycan Cross Turismo num todo-o-terreno ‘puro e duro’, como os próprios responsáveis da marca alemã indicaram anteriormente, o ‘Gravel Mode’ concede ao modelo uma maior competência em terreno ligeiramente acidentado, por exemplo, caminhos de gravilha ou em piso enlameado.

Neste modo, há então mais 30 mm de altura ao solo, atuando ainda ao nível dos sistemas de chassis Porsche Active Suspension Management (PASM), Porsche Traction Management (PTM), Porsche Torque Vectoring Plus (PTV+), Porsche Stability Management (PSM) e a transmissão final traseira. Esta última muda as relações de caixa de forma a beneficiar sempre a tração. Em termos de desenvolvimento da potência e precisão de dosagem, a curva característica do acelerador também foi configurada especificamente para a condução todo-o-terreno.

 

Sempre integral

Todos os Taycan Cross Turismo dispõem de tração integral, com um esquema de dois motores elétricos síncronos de excitação permanente, um por cada eixo, com a bateria Performance Plus de 93.4 kWh (composta por 33 módulos de células, cada qual com 12 células individuais para um total de 396) de capacidade a ser elemento base em todos.

A gama arranca com o Taycan 4 Cross Turismo, com potência entre os 280 kW (380 CV) e os 350 kW (476 CV) em modo Launch Control e binário máximo de 500 Nm. Este modelo tem um consumo médio entre os 22.4 e os 26.4 kWh/100 km para uma autonomia intervalada entre os 389 e os 456 quilómetros.

Segue-se o 4S Cross Turismo, com potência entre os 360 kW (490 CV) e os 420 kW (571 CV) em modo Launch Control, para um binário máximo de 650 Nm. O consumo energético varia entre os 22.6 e os 26.4 kWh/100 km, o que lhe permite autonomia entre os 388 e os 452 quilómetros.

O Taycan Turbo Cross Turismo debita uma potência entre os 460 kW (625 CV) e os 500 kW (680 CV) em modo Launch Control, com um binário máximo de 850 Nm e um consumo energético num intervalo entre os 22.6 e os 25.9 kWh/100 km. Este modelo apresenta uma autonomia entre 395 e 452 quilómetros.

Por fim, o mais potente Taycan Turbo S Cross Turismo dispõe de uma potência entre os 460 kW (625 CV) e os 560 kW (761 CV) em Launch Control, dispondo de um binário máximo de 1050 Nm. Com uma velocidade máxima de 250 km/h, é também o mais rápido a acelerar dos zero aos 100 km/h, fazendo-o em apenas 2,9 segundos. Com um consumo elétrico intervalado entre os 26.4 e os 24.4 kWh/100 km, a autonomia varia entre os 388 e os 419 quilómetros.

O motor elétrico, a transmissão e os inversores de movimento são combinados num módulo compacto. A potência de regeneração possível foi aumentada, podendo agora chegar aos 290 kW. Num exemplo de arquitetura elétrica avançada, o Taycan Cross Turismo trabalha com uma tensão de sistema de 800 V (amplitude de tensão de 610 a 835 V) e, tal como na berlina, a posição de montagem baixa e central da bateria contribui para um centro de gravidade baixo do veículo.

A carcaça de alumínio da bateria integrada no piso inferior faz parte da estrutura de segurança do Taycan Cross Turismo. Em matéria de segurança, a carroçaria totalmente galvanizada é composta por uma mistura de materiais, sendo os principais o alumínio e o aço. Para aumentar a resistência à flexão longitudinal, a tampa da bagageira integra um anel de torção composto por um perfil de alumínio.

Sistemas integrados

 

O controlador de chassis integrado Porsche 4D Chassis Control analisa e sincroniza todos os sistemas de chassis em tempo real, graças a um sistema de controlo central interligado. A suspensão pneumática adaptativa com tecnologia de três câmaras, incluindo a regulação eletrónica dos amortecedores PASM (Porsche Active Suspension Management), está disponível de série em todos os Taycan Cross Turismo.

A suspensão pneumática inclui uma função Smart Lift de série, que permite elevar a altura ao solo de forma automática (com memorização do ponto GPS) em determinados locais, como lombas de abrandamento ou as entradas de garagem. Basta premir a tecla do chassis para guardar estes locais.

No momento de carregar, a Porsche aponta a flexibilidade como vantagem, com um carregador de bordo de 11 kW (AC), havendo um de 22 kW como opcional. Nas viagens mais longas, os condutores de um Taycan Cross Turismo podem tirar proveito da estratégia inteligente de gestão da bateria, que podem ser carregadas em DC, com cinco minutos apenas para repor até 100 quilómetros (de acordo com o ciclo WLTP) na potência máxima de carregamento (270 kW). Nessa perspetiva, o tempo de carregamento de 5% a 80% é de 22,5 minutos.

A marca reforça igualmente a vertente de equipamento para o Taycan Cross Turismo, com o pacote de soluções de arrumação, com compartimentos na consola central à frente e atrás, bem como duas cintas de fixação na bagageira, a surgir de série aqui. De série surgem ainda os faróis com tecnologia LED, o ar condicionado Advanced Climate Control (de duas zonas), o volante desportivo multifunções, o equipamento parcialmente em couro e os bancos conforto de ajuste elétrico de oito níveis. Na versão de topo, a Turbo S Cross Turismo dispõe de bancos desportivos adaptáveis de ajuste elétrico de 18 níveis, equipamento bicolor sem couro, bem como um eixo traseiro direcional, o pacote Sport Chrono e o Porsche Electric Sport Sound.

Ao volante: Refinamento imperial

Fácil de aceder ao interior, esse é desde logo um dos pontos distintos do Taycan Cross Turismo, com uma posição de condução mais elevada e ótima visibilidade geral. De resto, a mesma envolvência e solidez dos comandos, não havendo qualquer falha a apontar. Este é um modelo com construção referencial e uma qualidade de rolamento que se percebe depois que é imperial. Eximiamente insonorizado e capaz de transportar uma pequena família em conforto.

Face à maior altura ao solo e à diferente configuração da carroçaria, a sensação de condução em pouco ou nada se altera em relação à berlina, demonstrando qualidades essenciais no domínio do chassis, com precisão assinalável de uma direção que basta apontar para que cumpra os objetivos do condutor. Também em curva, a sensação de solidez monobloco, numa prova da elevada competência de construção e de conjunção de argumentos: do baixo centro de gravidade à afinação do chassis, passando ainda pela rigidez estrutural. O conforto é igualmente pedra basilar deste modelo, digerindo com mestria o mau piso, deixando, por outro lado, sobressair as credenciais dinâmicas deste Porsche.

A versão que pudemos conduzir era uma Cross Turismo 4S, com potência entre os 360 kW (490 CV) e os 420 kW (571 CV) em modo Launch Control, para um binário máximo de 650 Nm. Em traços gerais, a capacidade sempre impressionante de catapultar o modelo para a frente, com enorme facilidade, podendo concretizar ultrapassagens com total facilidade e assumindo-se como uma ótima experiência desportiva. No percurso que efetuámos, entre Óbidos e Cascais, gastámos entre 23 e 24 kWh/100, um valor que seria facilmente reduzido com maior preocupação com a eficiência.

De forma sucinta, ao cabo da curta experiência de condução, fica a ideia de que mais do que um elétrico da Porsche, este é um Porsche de ‘corpo inteiro’, correspondendo ao ideal da marca alemã, mas abrindo a porta para uma fronteira selvagem de quem procura levar este modelo para outros terrenos sem ser apelidado de louco.

23 de julho de 2021

Fonte: motor24.pt
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